A inteligência artificial avança rapidamente no sistema de Justiça brasileiro. Tribunais e outras instituições investem em novas ferramentas, infraestrutura, segurança, regulamentação e governança para modernizar processos e ampliar sua capacidade de atuação.
Mas existe um desafio que precisa acompanhar esses investimentos: preparar as pessoas para utilizar a tecnologia com segurança, responsabilidade e eficiência.
A tecnologia avança. O preparo humano precisa acompanhar.
Mesmo em instituições que adotaram soluções corporativas e estabeleceram diretrizes de segurança, ainda encontramos profissionais utilizando contas pessoais, ferramentas não autorizadas ou compartilhando informações em ambientes que não oferecem as proteções necessárias. Esse fenômeno, conhecido como shadow IA, evidencia a distância que pode existir entre a disponibilização da tecnologia e sua adoção adequada.
A questão se torna ainda mais relevante quando pensamos no uso da IA em atividades jurídicas. Resultados incorretos, informações inventadas e tentativas de manipulação de sistemas exigem conhecimento sobre os riscos e capacidade de avaliação crítica. A supervisão humana é fundamental, especialmente em atividades que podem produzir consequências significativas para a sociedade.
O desafio das instituições, portanto, é transformar o investimento tecnológico em capacidade humana de atuação. E isso exige repensar como desenvolvemos competências.
Da capacitação à prática de competências
As estratégias tradicionais de capacitação continuam importantes. A formação presencial favorece a interação e a troca de experiências. A educação digital amplia o acesso e permite alcançar profissionais distribuídos em diferentes unidades. Já o estudo autônomo, cada vez mais apoiado por ferramentas de IA, oferece novas possibilidades de personalização e aprofundamento.
Cada modalidade contribui de maneira diferente para o desenvolvimento profissional. Entretanto, compreender um conceito ou concluir um curso não significa, necessariamente, estar preparado para aplicar esse conhecimento diante de uma situação real.
É nesse ponto que a inteligência artificial abre uma oportunidade relevante para a aprendizagem: criar experiências nas quais os profissionais possam praticar competências, enfrentar desafios e receber feedback sobre seu desempenho.
Imagine uma liderança responsável por implantar uma nova ferramenta de IA em sua unidade. A equipe apresenta dúvidas, insegurança e resistência à mudança. Conhecer os princípios da transformação digital é importante, mas conduzir essa conversa exige habilidades de comunicação, escuta e gestão de pessoas.
Com simulações apoiadas por IA, é possível reproduzir situações como essa em ambientes seguros, permitindo que o profissional experimente diferentes abordagens, receba feedback imediato e identifique oportunidades para o seu desenvolvimento.
O que a gestão de pessoas pode aprender com as simulações?
A adoção do DOT Skills amplia as possibilidades para as áreas de gestão de pessoas e escolas judiciais. Indicadores de participação, carga horária e conclusão continuam relevantes, mas podem ser complementados por informações sobre como determinadas competências são demonstradas durante as atividades de aprendizagem.
Essas evidências ajudam a identificar necessidades de desenvolvimento e orientar decisões de capacitação. Embora o desempenho em uma simulação não comprove, isoladamente, a aplicação da competência no trabalho, oferece uma perspectiva robusta sobre o processo de aprendizagem, porque avalia a prontidão de cada colaborador para resolver situações reais do trabalho.
Durante o ExpoJud 2026, compartilhei essa reflexão sobre como a inteligência artificial pode contribuir para desenvolver as competências necessárias à transformação da Justiça.
Para lideranças, áreas de Capacitação e RH e escolas judiciais, fica uma questão estratégica: estamos apenas ampliando o acesso à capacitação ou criando condições para que o conhecimento se transforme em capacidade efetiva de atuação?
O futuro da Justiça dependerá da evolução de seus sistemas, mas também da capacidade das pessoas de utilizá-los com discernimento, segurança e responsabilidade.