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O “Pra quê” que muda o jeito de ver o tempo — e a liderança

Escrito por Ana Franzoti | 14/10/2025 22:23:00

Há um ano, vivi algo que chamei de “nano sabático”. Foram apenas 25 dias de férias, mas com um propósito profundo: me desconectar. Nada de laptop da empresa, nada de celular corporativo. Só o tempo — e a intenção de estar presente.

Entre tantas experiências marcantes, uma se tornou inesquecível. Eu estava no início da viagem, realizando o sonho de conhecer uma fábrica de queijo parmesão — daqueles queijos enormes e maturados com paciência. O grupo era diverso, cheio de turistas curiosos, entre eles um casal de executivos espanhóis.

Enquanto o guia Giovanni nos explicava o processo artesanal, comecei a observar as linhas de produção: equipamentos parados, processos manuais, oportunidades evidentes de ganho de eficiência. Meu olhar corporativo se acendeu. Eu via possibilidades, melhorias, produtividade.

Antes que eu perguntasse algo, o colega espanhol tomou a palavra. Perguntou ao Giovanni por que não automatizavam as linhas, não otimizavam a logística, não aceleravam a produção. Ele listava soluções, ganhos, oportunidades — e eu, secretamente, concordava com cada uma delas.

O guia ouviu tudo, calmamente. E respondeu com uma serenidade quase desconcertante:
“Pra quê?”

A frase pairou no ar. Giovanni explicou que faziam melhorias, sim, mas sem abrir mão do que mais valorizavam: sua tradição e sua receita de produzir queijo.

Aquela pergunta — simples e definitiva — me atravessou. Percebi que, por muito tempo, tinha enxergado o mundo pelos olhos do trabalho, da eficiência, da entrega. E, naquele instante, entendi que talvez a verdadeira inteligência esteja em saber quando não mudar, em reconhecer o que dá sentido ao que fazemos.

Desde então, o “pra quê” tem me acompanhado como uma lente que reposiciona o foco. Ele é diferente do “por quê”. O “por quê” busca explicação, lógica, causa. O “pra quê” busca intenção, sentido e direção.

Essa distinção tem um poder imenso dentro das organizações. Estamos rodeados de agendas cheias, metas crescentes e uma sensação constante de falta de tempo. Falamos de produtividade, agilidade e performance, mas pouco sobre propósito e presença.

A liderança, especialmente a de quem ocupa posições de influência, vive o paradoxo de liderar o novo sem perder a essência. Mas como inspirar, engajar e construir cultura se não há espaço para respirar, refletir e estar inteiro?

A liderança, especialmente a de quem ocupa posições de influência, vive o paradoxo de liderar o novo sem perder a essência. Mas como inspirar, engajar e construir cultura se não há espaço para respirar, refletir e estar inteiro?

A liderança, especialmente a de quem ocupa posições de influência, vive o paradoxo de liderar o novo sem perder a essência. Mas como inspirar, engajar e construir cultura se não há espaço para respirar, refletir e estar inteiro?

“Pra quê?” talvez seja a pergunta que mais precisamos fazer antes de decidir, de mudar, de acelerar. Ela nos devolve o norte quando tudo parece urgente. Nos lembra que há valor em sustentar o que importa — mesmo quando o mundo grita por mais velocidade.

Giovanni, sem saber, me ensinou uma lição sobre liderança. Ele não falava de queijos, mas de coerência. De saber o que precisa ser preservado para que o resto possa evoluir.

E é isso que o “pra quê” nos convida a revisitar: o motivo pelo qual fazemos o que fazemos, e o quanto estamos presentes — de verdade — nas escolhas que sustentam quem somos e o que lideramos.

Porque talvez liderança não seja sobre fazer mais. Seja sobre fazer com propósito, e estar inteiro em cada decisão.

 

Ana Franzoti é CEO e Founder da Consultoria Ana Franzoti Desenvolvimento Humano
e membro da comunidade DOT Connections – CHRO