Sábio isolado em uma sala?

É falsa a ideia de que podemos hierarquizar, de forma generalizada, o conhecimento humano em dados, informação, conhecimento e competência

O que é conhecimento para uma pessoa é dado para outra, até que se processe a sua socialização, explicitação, combinação e incorporação. O contexto da estratégia é o que justifica o cultivo dos ativos do conhecimento. Numa era de mudanças espantosamente rápidas é importante separar informações triviais e transitórias dos importantes ativos intelectuais.

A citação comumente encontrada de que metade do que um calouro de Engenharia aprende ao entrar na faculdade estará obsoleta quando ele se formar é falsa. Há uma confusão entre dados e conhecimentos, o que equivaleria dizer na era industrial que matéria-prima e estoque são ativos de capital. A dificuldade de identificar o conhecimento tácito não deve se constituir numa barreira, já que parte significativa da vantagem competitiva de uma organização recai sobre ele. Esse tipo de conhecimento só se dissemina quando as pessoas interagem ou empreendem esforço sistemático para descobri-lo e torná-lo explícito.

Por exemplo: os e-mails e as telecomunicações servem para lidar com o conhecimento explícito, mas não podem transmitir o conhecimento tácito. Se você estiver no piloto automático e o mundo mudar, você está frito. Para a socialização dos conhecimentos tácitos as comunidades de prática e as redes sociais corporativas são mais indicadas. Este é um ciclo – a espiral do conhecimento – que nunca termina: identificar o conhecimento tácito; explicitá-lo permitindo que seja formalizado, capturado e alavancado; disseminá-lo para que o novo conhecimento tome impulso e torne-se tácito.

O investimento em pessoas inteligentes ou o seu gerenciamento deve priorizar as ações de identificação e, em seguida, as ações de conversão. A localização dos ativos intangíveis de uma organização está nas pessoas e nas suas interações. Distinguir competência individual de competência organizacional é fundamental para a gestão do conhecimento. A importância da competência está na fonte de inovação e renovação.

Entretanto, organizações como as universidades – repletas de pessoas competentes – não são um exemplo de brilho coletivo, pois o fluxo de conhecimento é pequeno, devido a pouca diferença de potencial energético de conhecimento e a baixa interação entre os professores dos diferentes departamentos. Já a rede de lanchonetes McDonald’s possui um fluxo intenso de conhecimento capaz de oferecer a mesma qualidade de seus hambúrgueres em diversas culturas.

As interações internas são fundamentais para que se consiga compartilhar e transmitir o conhecimento. Alguns exemplos são os sistemas de informação, inteligência colaborativa e de negócios, conhecimento dos canais de mercado, e outros que compõem a propriedade de um grupo de pessoas ou de uma organização, a partir da transformação do know-how individual.

A forma máxima do capital do cliente é o conhecimento compartilhado. Assegurar que a interação com os clientes seja a melhor possível torna viável que vendedor e comprador, clientes e fornecedores, compartilhem planos e expertise. O intercâmbio entre essas modalidades – competência das pessoas e suas interações internas e externas à organização – é que forma os ativos intangíveis de uma organização. Começa pelas pessoas, mas de nada vale um sábio isolado em uma sala: é preciso interação.

*Neri Dos Santos é doutor em engenharia pelo Conservatoire National des Arts et Métiers – Paris (França), professor titular da UFSC e consultor técnico da Knowtec (www.knowtec.com)

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