Inteligência e gestão

O governo brasileiro implantou, na última década, políticas de apoio à inovação, como a Lei de Inovação, a Lei do Bem, e o Programa Brasil Maior, que exorta empresas à inovação de produtos, processos, distribuição e comercialização para aumentar a competitividade.

A capacidade de inovar é exigência do mercado internacional, e as empresas brasileiras têm que incorporá-la para que o País se destaque da concorrência. Todavia, a maioria das empresas, sobretudo as pequenas e médias, não tem acesso à coleta, análise e disseminação de informação, nem à sua transformação em conhecimento organizacional.

Apenas uma restrita parcela conta com fontes tecnológicas, como universidades e institutos de pesquisa. Poucas têm parcerias com laboratórios nacionais com o objetivo de usar o conhecimento como fator de produção para implementar métodos, técnicas e ferramentas de gestão do conhecimento e de inteligência competitiva. É preciso uma quebra de paradigma. Falta a cultura do conhecimento como agregador de valor às empresas. Gestores devem administrar com base em ativos intangíveis. A essência de uma organização do conhecimento passa pela separação entre intangível e tangível.

Tem sido frequente a venda de empresas por preços bem acima de seus valores contábeis. O que faz a diferença? Por que varia esse valor? Qual ativo cria esse diferencial? A resposta está nos ativos intangíveis, que todas as empresas têm, mas poucas sabem gerenciar.

O potencial desses ativos de gerar valor para uma empresa é infinito. A capacidade das pessoas de criar conhecimento a partir de informação é tamanha que tudo que hoje está no mercado já é obsoleto.

O conhecimento deve ser prioridade e é mais importante do que qualquer outro fator de produção da era industrial. Esse recurso influenciará o futuro das empresas, por meio da inovação e do desenvolvimento de produtos, sobretudo das que buscam novos mercados. Algumas dessas competências estão entranhadas na cultura organizacional, baseadas no conhecimento das pessoas que compõe boa parte dos ativos intangíveis de uma organização. O sucesso vem da geração de conhecimento inovador, de difundi-lo e incorporá-lo a produtos, serviços e sistemas.

O desenvolvimento de ativos é um dos principais objetivos da gestão empresarial. Essa tarefa é complexa na medida em que, hoje, os ativos mais valiosos são bens intangíveis, não bens de capital, como máquinas, imóveis e fábricas. O valor dos relacionamentos não é menos importante do que o de uma fábrica. Assim, se um gerente volta sua atenção para o pessoal da empresa, são criados relacionamentos internos intangíveis – processos otimizados, novos métodos e inovações em produtos. Ao contrário, se for para fora da empresa, além da distribuição dos produtos (bens tangíveis), são criados relacionamentos externos intangíveis, como relações com clientes, fornecedores e concorrentes.

A razão que leva uma empresa a implementar a gestão do conhecimento é a mesma da inteligência competitiva: gerar capacidade de inovar e obter vantagem competitiva, desde que a primeira seja utilizada como estrutura para a segunda. A gestão do conhecimento facilita o fluxo e a criação de conhecimento, permitindo que a inteligência seja gerada mais facilmente. Já a inteligência competitiva é facilitada pela gestão do conhecimento. Tanto um quanto o outro estão preocupados em “entregar um produto” que apoie a tomada de decisão, a inovação e o aumento da competitividade.

Esse processo inicia-se com uma auditoria do conhecimento organizacional e com a coleta de informações estratégicas. Isso significa que as empresas precisam conhecer clientes, concorrentes, fornecedores, alianças, oportunidades e ameaças, a partir de informações de dentro e de fora da empresa. O conhecimento organizacional envolve a formação de uma base de referência para se avaliar uma nova informação. Para a sobrevivência de nossas empresas, sobretudo as pequenas, é fundamental a coleta sistemática de informações para que as referências sejam atualizadas. É fundamental que esse processo promova a avaliação de novas informações sem deixar de lado o que já se sabe, para que gestores e executivos possam tomar decisões oportunas.

Somente a incorporação desses sistemas na gestão empresarial permitirá que as empresas deem respostas rápidas ao mercado, e sejam capazes de enfrentar um ambiente competitivo. Isso não exige técnicas sofisticadas, ou habilidades inacessíveis. São sistemas focados em conhecimentos, habilidades e técnicas já disponíveis nas empresas, mas em uma direção e em um propósito que, estes sim, são novos para a maioria delas. Como aconteceu com outras tecnologias de gestão, a introdução da inteligência competitiva e da gestão do conhecimento encontra resistências.

Todavia, nos últimos anos, como a inovação passou a ser um imperativo no mundo dos negócios, a implementação de sistemas de inteligência competitiva e de gestão do conhecimento tem tido um salto significativo, uma evidência de que a hora de incorporar a inteligência às empresas chegou. Mas quem pensa o contrário pode experimentar a ignorância.

*Neri Dos Santos é doutor em engenharia pelo Conservatoire National des Arts et Métiers – Paris (França), professor titular da UFSC e consultor técnico da Knowtec.

Originalmente publicado no Jornal DCI

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