Enfrentar a competitividade global

Gestão do Conhecimento é um conceito difícil de ser definido com precisão e simplicidade – trata-se de uma nova ferramenta de gestão para que as empresas, sobretudo as de pequeno e médio porte, possam enfrentar a competitividade global.

Não se trata apenas da gestão dos ativos de conhecimento da organização, mas também da gestão dos processos que atuam sobre esses ativos: os processos de identificação, criação, armazenamento e compartilhamento de conhecimentos organizacionais.

Envolve a identificação e análise dos ativos de conhecimento disponíveis e desejáveis na empresa, além dos processos a eles relacionados. Também envolve o planejamento e o controle das ações para desenvolvê-los (os ativos e os processos), com o intuito de atingir os objetivos da organização. – É uma atividade de negócios com dois aspectos básicos – de um lado, gerencia os ativos de conhecimento das atividades de negócios, explicitamente, como um fator de negócios refletido na estratégia, política e prática em todos os níveis da empresa e, por outro lado, estabelece uma ligação direta entre as bases intelectuais da empresa – explícitas (codificadas) e tácitas (know-how pessoal) – e os resultados alcançados.

Na prática, gestão do conhecimento engloba as seguintes etapas: (i) Identificar e mapear os ativos intelectuais detidos pela empresa; (ii) Criar novos conhecimentos para oferecer vantagens competitivas no mercado; (iii) Tornar acessíveis grandes quantidades de informação corporativas, compartilhando as melhores práticas e a tecnologia que torna possível tudo isso – incluindo groupwares e intranets. Isto engloba muita coisa e deveria tornar-se parte integrante da maioria dos negócios das empresas. – A gestão do conhecimento inclui a auditoria dos ativos intelectuais que focaliza fontes, funções críticas e potenciais gargalos que podem impedir o fluxo normal do conhecimento. Também está incluído o desenvolvimento da cultura e dos sistemas de apoio que protegem os ativos intelectuais da deterioração e procuram oportunidades para aprimorar decisões, serviços e produtos através da inteligência e das agregações de valor e de flexibilidade.

Ela vem complementar e realçar outras iniciativas na empresa, como a gestão por processos, a gestão por competências ou mesmo a inteligência competitiva, e está no centro da aprendizagem organizacional e da gestão da inovação, suprindo-a de ideias que avancem e a sustentem numa posição competitiva. A definição de gestão do conhecimento pode ser melhor entendida se reexaminarmos os conceitos de ativos intangíveis, introduzidos por Karl Erik Sveiby (1998)[1]. Segundo este autor, “todos os ativos e estruturas organizacionais, sejam elas tangíveis ou intangíveis, são resultantes da atividade humana”. De fato, o resultado das ações das pessoas, no meio ambiente, pode ser tangível (cultivar jardins, conduzir um carro, etc…) ou intangível (ter ideias, estabelecer relacionamentos com outras pessoas, etc…). Neste sentido, pode-se dizer que as pessoas criam relacionamentos, externos e internos, para se expressarem no meio ambiente no qual elas estão inseridas.

Da mesma forma que as pessoas, as organizações também criam relacionamentos externos e internos. Além disso, como as pessoas têm capacidade de agir numa grande variedade de possíveis situações, quando elas estão desenvolvendo uma atividade de trabalho, dentro de uma empresa, elas aumentam o seu valor. Por isso, a competência humana é, também, um ativo intangível. Pode-se dizer, então, que são três as famílias de ativos intangíveis que deveriam ser incluídos no balanço de uma empresa: (i) Relacionamentos externos: dizem respeito às relações com os clientes, fornecedores e a imagem da empresa junto à sociedade; (ii) Relacionamentos internos: dizem respeito aos conceitos, cultura organizacional, modelos gerenciais, programas de computadores, sistemas administrativos e registros de patentes que fazem parte da empresa; (iii) Competências dos funcionários: diz respeito à capacidade de ação das pessoas e dos grupos, dentro das empresas, em situações distintas. – Salienta-se que o conhecimento cresce ao ser compartilhado e ao ser utilizado. Quando doamos um real a alguém, este alguém ganha um real, mas nós o perdemos. Quando nós transferimos conhecimento a alguém, este alguém ganha conhecimento, mas nós continuamos com ele também e, neste caso, há uma ampliação deste conhecimento.

Na verdade, o conhecimento é duplicado. Estamos acostumados com a depreciação dos ativos tangíveis, como carros, computadores e eletrodomésticos, na medida em que eles são utilizados. Ao contrário, se um ativo intangível é utilizado (como, por exemplo, a habilidade de falar outro idioma), então ele se amplifica. De fato, o conhecimento amplia o seu valor quando é utilizado. – Salienta-se, ainda, que a maioria das empresas são constituídas de ativos intangíveis. Na realidade existem três tipos de empresas: as intensivas em mão de obra, as intensivas em capital e as intensivas em conhecimento. Considerando-se que, de uma forma em geral, as empresas de pequeno e médio porte são (ou deveriam ser) intensivas em conhecimentos, então os ativos intangíveis constituem um fator determinante para a economia dessas empresas. Neste sentido, para que as empresas brasileiras, sobretudo as de pequeno e médio porte, criem valor e obtenham uma vantagem competitiva no mercado cada vez mais globalizado é imperativo que elas incorporem a gestão do conhecimento em suas práticas gerenciais, como já vêm fazendo grandes empresas como a Embraer e a Natura. – Esta é uma concepção bem diferente do paradigma da era industrial, porque a fábrica da era industrial criava valor a partir de bens materiais, movimentando-os dos fornecedores para a fábrica e dela para os clientes. A agregação de valor se dava pela adição de recursos como energia e mão-de-obra. As empresas que vemos hoje criam valor não a partir de recursos físicos, mas da inteligência e da competência das pessoas, assim como dos relacionamentos entre elas e seus clientes. Por isso, a economia do conhecimento exige uma reformatação na gestão que focalize mais as relações e os fluxos desses ativos intangíveis nas organizações.

Desde a segunda metade do Século XX, as mudanças econômicas, sociais e tecnológicas provocaram numerosas transformações no contexto empresarial mundial. Com a globalização, novas possibilidades surgiram, ao mesmo tempo que a concorrência empresarial aumentou. As empresas, em todo o mundo, reagiram de diversas maneiras: redução de efetivos, fusões, aquisições, reengenharia de processos e terceirizações. No início dos anos 90, um número crescente de pesquisadores e consultores qualificaram a gestão do conhecimento como uma nova prática empresarial e, cada vez mais, publicações e conferências começaram a abordar este tema. A partir de 1993, passou a ser amplamente aceito que a vantagem competitiva das empresas era devido ao seu capital intelectual, como as competências, as relações com os clientes e as inovações. Assim sendo, a gestão do conhecimento deve ser hoje um objetivo essencial para a maioria das empresas que pretendem enfrentar a competitividade global.

*Neri Dos Santos Dr. Ing. Graduado em Engenharia Mecânica pela UFSC, mestre pela Université de Paris XIII, doutor pelo Conservatoire National des Arts et Metiers (Paris, França) e pós-doutorado em Engenharia do Conhecimento pela École Polytechnique de Montreal (Canadá).Consultor Técnico da Knowtec, Coordenador da atividade de pesquisa programada UE-KNOWTEC/EGC-UFSC.

Fonte: DCI

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