Opinião | Não adianta torturar os números: a economia brasileira está patinando

No início deste ano redigi um pequeno paper no qual apresentei uma breve análise de cenário para 2014, do ponto de vista macroeconômico e, também, das tendências dos negócios.

Salientei que uma retomada do crescimento econômico mundial estaria se confirmando para 2014, mas que ela não ocorreria na mesma velocidade e na mesma intensidade em todas as regiões e em todos os países do mundo. Em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, onde o investimento que já era sustentável e as demandas crescentes no final de 2013, em 2014 teriam um ano mais promissor, podendo-se mesmo afirmar que uma verdadeira retomada econômica estava configurada. Diferentemente, nos países da Zona do Euro, a retomada econômica era mais lenta e ainda existia muita incerteza nos mercados para 2014. Da mesma forma, salientei que nos países emergentes, que contribuíram com aproximadamente ¾ do crescimento econômico mundial em 2013, a atividade econômica ainda era consistente na Ásia, sobretudo na China, mas tinha tido uma forte tendência de instabilidade nos outros países, em particular no Brasil.

Infelizmente, para a infelicidade do Brasil e dos brasileiros, constata-se hoje que a tendência de instabilidade se acentuou de forma significativa. Os números publicados pelo IBGE na semana passada, confirmam que a economia brasileira entrou em recessão técnica com recuo de 0,6% no último trimestre.

Este relaxamento tem provocado uma intranquilidade nos investidores e uma consequente forte desaceleração econômica do País. De fato, o tripé macroeconômico foi substituído por uma nova matriz econômica, baseada na oferta de crédito e no consumo das famílias. Todavia, a retração nas vendas de produtos de consumo duráveis, evidencia que este modelo está no seu limite. A queda das vendas em 2014 poderá alcançar 20%, em relação as vendas de 2013. Este resultado é devido ao endividamento das famílias, à redução de confiança dos consumidores e aos juros e a inflação em alta, que estão levando os brasileiros a reduzir o ritmo de consumo.

Esses fatores têm provocado, ao longo deste ano, uma desaceleração do comércio depois do forte ritmo registrado nos últimos anos. Até então, o consumo vinha se mantendo como o principal vetor de crescimento da economia brasileira. Na realidade, o crescimento econômico do Brasil continua a ser muito baixo (devendo fechar o ano de 2014 próximo de zero, segundo projeções do mercado) para financiar o nosso modelo social. Para garantir um crescimento sustentável do País, o ponto chave é o investimento, que vem caindo sistematicamente neste ano, chegando a 16,5% do PIB no último mês de julho.

Da mesma forma, a balança comercial brasileira que já tinha registrado um superávit (exportações menos importações) de apenas US$ 2,56 bilhões em 2013, terá este ano um resultado, ainda, pior. Na quarta semana de agosto de 2014, a balança comercial registrou déficit de US$ 214 milhões, resultado de exportações no valor de US$ 4,308 bilhões e importações de US$ 4,522 bilhões. No mês, as exportações somam US$ 15,110 bilhões e as importações, US$ 14,976 bilhões, com saldo positivo de apenas US$ 134 milhões. No ano, as exportações totalizam US$ 148,665 bilhões e as importações, US$ 149,450 bilhões, com saldo negativo de US$ 785 milhões, já superando o déficit histórico de 2000. Infelizmente, os níveis atuais dos gastos públicos e, principalmente, a ineficiência em sua aplicação, têm sido fatores restritivos ao nosso crescimento.

 “Portanto, não adianta torturar os números porque eles não confessam, apenas constatam a realidade: a economia brasileira definitivamente está patinando”.

Neste cenário, dificilmente se pode esperar o benefício de reformas político-institucionais macroeconômicas imediatas, capazes de aliviar o peso absurdo do Estado Brasileiro sobre a sociedade (atualmente a sua maior fragilidade) e abrir caminho para a modernização e a desburocratização, condiçãosine qua non para o País alcançar uma maior capacidade competitiva.

Num cenário futuro, a capacidade de poupança e de investimento dos setores público e privado deverão ser a mola propulsora do crescimento econômico do Brasil. Entretanto, o principal desafio para o País é encontrar um novo modelo de desenvolvimento. Sem dúvida, o desafio para o próximo governo é criar as condições para o reinício de gerar ganhos de produtividade e influenciar a mudança do ciclo econômico atual, desindexando totalmente a economia brasileira e retomando o tripé macroeconômico com a definição de metas de inflação, que tenham uma convergência para o centro e não para o teto da meta e que sejam críveis e respeitadas pela sociedade brasileira, evitando o controle artificial de preços, como vem sendo feito atualmente com os combustíveis e a energia. Aliás, como em todos países desenvolvidos que adotam o regime de metas de inflação, definitivamente o Brasil tem que ter um Banco Central independente, garantido por lei, com mandato fixo para o presidente e de todos os seus diretores, com regras claras para as suas respectivas nomeações e eventuais destituições.

Este é o cenário que a sociedade brasileira espera do futuro governo e que o setor empresarial tem como expectativa, para poder produzir em um ambiente que seja favorável e seguro aos negócios.

blog-neri

 

Este artigo foi publicado no Portal Economia SC

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